O futebol feminino vive um dos momentos mais marcantes da sua história, com um crescimento consistente em termos de visibilidade, investimento e participação a nível global. Cada vez mais, a modalidade ganha espaço nos meios de comunicação, atrai novas gerações de atletas e afirma-se como um pilar essencial do desporto moderno. No horizonte, a realização da Copa do Mundo de 2027 no Brasil surge como um marco histórico, prometendo não só elevar ainda mais o nível competitivo, mas também reforçar o impacto social e cultural do futebol feminino na região e no mundo.
É neste contexto de transformação e grande expectativa que conversamos com a historiadora e pesquisadora Aira Bonfim, uma das vozes de referência na análise do desenvolvimento da modalidade. Com um olhar atento sobre os desafios e os avanços do futebol feminino, Aira partilha reflexões importantes sobre o presente e o futuro do jogo, ajudando-nos a compreender o verdadeiro significado deste momento histórico.
Aira Bonfim é mestra em História, Política e Bens Culturais pela Fundação Getulio Vargas, com pesquisas sobre o início do futebol feminino no Brasil no século XX.
Integra projectos de referência como o Museu do Futebol, onde actuou como técnica pesquisadora.
Foi curadora de diversas exposições e programações ligadas ao desporto e atualmente actua em pesquisas, documentários e publicações, sendo atualmente uma das principais vozes acerca da modalidade no Brasil e na América do Sul.
Confira abaixo a entrevista completa:
ProAcademy – Como você vê o momento atual do futebol feminino no Brasil e no mundo?
Aira Bonfim -Vejo como um momento de expansão, mas ainda muito desigual. Existe mais visibilidade, mais investimento e mais circulação internacional de jogadoras, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, essa expansão não é homogênea — ela se concentra em alguns países e clubes, enquanto outros contextos seguem com estruturas muito frágeis.
No Brasil, a gente avançou institucionalmente, mas ainda carrega um atraso histórico grande. O futebol feminino cresceu, mas não na mesma velocidade nem com as mesmas condições do masculino, para todos os estados nacionais. Então é um momento importante, mas que ainda exige bastante atenção para não confundir crescimento com consolidação.
ProAcademy – Sobre a Copa do Mundo no país, quais são os principais desafios para que tenhamos um grande evento e que sirva para aumentar a popularidade da modalidade?
Aira Bonfim – O principal desafio é não tratar a Copa como um evento isolado. Não adianta fazer um grande espetáculo e depois não sustentar políticas, calendário, investimento e formação – tanto no nível profissional, como no de lazer, ou seja, no acesso de mulheres de todas as idades à prática e consumo do futebol.
Tem também um desafio de comunicação: como mobilizar públicos que historicamente foram afastados do futebol feminino? E isso passa por narrativa, cobertura da imprensa, acesso aos jogos e identificação com as atletas.
Além disso, tem uma questão estrutural mesmo: garantir condições de trabalho, base, campeonatos fortes. A Copa pode ser uma vitrine poderosa, mas ela só se sustenta se houver continuidade depois. Também estamos discutindo junto às entidades esportivas do evento “quem acessa esse torneio” na tentativa de garantir meias entradas e a presença de pessoas (principalmente mulheres e garotas) que nunca entraram em um estádio.
ProAcademy – Quais foram suas principais fontes para a pesquisa do seu livro acerca da história do futebol feminino?
Aira Bonfim – A base principal foi a imprensa da época (1915-1941), especialmente a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Os jornais são fundamentais porque mostram não só os jogos, mas também como o futebol feminino era comunicado, interpretado e, muitas vezes, ridicularizado.

Também trabalhei com arquivos, registros dispersos, fotografias e algumas coleções menos usuais como as do Centro de Memória do Circo. Mas o mais interessante foi justamente ler nas entrelinhas — entender o que estava sendo dito sobre as mulheres e o futebol, e o que isso revelava sobre a sociedade daquele período.
ProAcademy – Quais países você destacaria como exemplos no desenvolvimento do futebol feminino?
Aira Bonfim – Hoje, Estados Unidos, Inglaterra e Espanha são referências importantes, cada um à sua maneira. Os Estados Unidos têm uma tradição mais consolidada, com base forte e investimento contínuo e projeto ligado à formação universitária. A Inglaterra e Espanha vem de um processo recente, mas muito estruturado, com liga forte e apoio institucional – aproveita-se a estrutura forjada no futebol masculino para replicar, com adaptações, o fomento à modalidade feminina.
Também olharia com atenção para algumas experiências na América Latina, que mostram crescimento acelerado, ainda que com desafios. Mas sempre com cuidado: não dá pra simplesmente importar modelos, porque cada contexto tem sua própria história.

ProAcademy – Que conselhos você daria para jovens garotas que estão tentando praticar o futebol, tanto no Brasil quanto em Moçambique?
Aira Bonfim – Primeiro: continuar. Isso parece simples, mas historicamente nunca foi. Estar em campo já é, por si só, uma forma de resiliência e permanência dentro de um ambiente que nunca foi convidativo às mulheres.
Segundo: buscar redes e transversalidades. O futebol feminino sempre se sustentou muito em coletividade — equipes de bairro, projetos, outras jogadoras. Isso faz diferença. Também é um esporte que transcende o jogo. Pode ser compreendido como uma ferramenta de direito social e de interrupção de um mundo desigual em muitos níveis.


